Acaso é um senhor muito, muito velho, mas até uns anos atrás ainda tinha muita energia.
Se ele sabia que duas pessoas estavam lendo o mesmo livro, de capa igual, logo dava um jeito de colocá-las em assentos lado a lado no avião.
Se alguém viajava pra um lugar onde antes nunca tivesse estado, Acaso empurrava a pessoa pra perambular numa rua de restaurantes e de algum modo esta cairia exatamente naquele que seria, a partir dali, o seu restaurante favorito.
Velho safado!
Tinha vez de tropeçar de propósito e derrubar um café na camisa branca só para que dois estranhos dividissem um guardanapo e, quem sabe, um destino.
Ele já fez muita gente perder o ônibus para que, no intervalo da irritação, surgissem as ideias dos textos empacados há semanas.
Acaso deixava frequentemente cair um livro da estante exatamente na página que precisava ser lida; fazia tocar na rádio uma música antiga bem no dia em que você tinha decidido que “já superou”.
O velhote costumava fazer sumir folhas de trabalhos de escola, rascunhos de livros e cartas quando achava que não estavam tão bons assim, para que os(as) autoras escrevessem outros, melhores.
Ele fazia confusão nos horários de compromissos de gente que podia se e contrair pra mudar o rumo de grandes pesquisas.
O que ele mais gostava mesmo era soltar soluções e ideias geniais nos sonhos.
Tinha um prazer quase infantil em ver nossos planos desobedecidos.
Atualmente, entretanto, Acaso tem se sentido meio sem espaço.
As capas de livro não mais aparecem na rua, porque a turma tem usado Kindle;
as perambulações em viagem não são aleatórias, pois o planejamento é sempre apertado com as dicas do Instagram;
Os cafés, os ônibus e as salas de espera têm gente usando fone de ouvido;
Todo mundo levanta num pulo e não dá pra lembrar do sonho;
E, enfim, as folhas não são mais usadas para as cartas, escritas e trabalhos de escola, que estão todos num drive.
Esta própria história do velho, agora, esta sendo escrita no Diário de um iPhone.
Coitado. Acaso pelo jeito agora já é velho demais…
Ou talvez esteja apenas esperando a próxima falha de conexão; para que, na hora em que um celular descarregar, um mapa sair do ar, um algoritmo errar a previsão, soltar um sorriso sem dentes, como quem nunca foi embora.